Capítulo 055

Harry Potter e as Relíquias da Morte

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Silhuetas em tons de sépia, da animação do conto dos três irmãos: a Morte, alta e encurvada, de manto comprido, se inclina diante de um velho de bengala que estende a mão para ela, ao lado de uma figura envolta numa capa brilhante, contra um grande sol pálido

Quando começamos a acompanhar a história de Harry Potter, conhecemos um garoto que descobre ser um bruxo.

Ele encontra um mundo completamente diferente daquele em que cresceu.

Faz amigos, aprende magia e começa a descobrir os mistérios que cercam sua própria existência.

Mas, conforme a história avança, percebemos que sua jornada não é apenas sobre derrotar Voldemort.

Harry precisa enfrentar seus medos.
Compreender sua história.
Lidar com perdas.
E descobrir que tipo de pessoa deseja se tornar.

E existe um conceito da psicologia de Carl Gustav Jung que pode nos ajudar a compreender essa transformação.

A individuação.

O que é individuação?

Individuação

Um processo de desenvolvimento psicológico no qual a pessoa busca se tornar mais consciente da totalidade da sua personalidade.

Carl Jung

Isso envolve reconhecer diferentes aspectos de si mesma.

Suas qualidades.
Suas limitações.
Seus desejos.
Seus medos.
E também aquilo que permanece inconsciente.

Mas existe uma diferença importante entre individuação e individualismo.

Individualismo costuma estar associado à valorização da autonomia ou dos interesses individuais.

Já a individuação, no sentido junguiano, não significa se afastar das outras pessoas ou acreditar que somos superiores a elas.

Trata-se de desenvolver uma relação mais consciente com aquilo que somos, sem reduzir nossa identidade aos papéis que desempenhamos ou à imagem que gostaríamos de apresentar ao mundo.

Jung também diferenciava o ego do Self, frequentemente traduzido como Si-mesmo.

O ego representa o centro da consciência, aquilo que normalmente reconhecemos como nosso eu.

O Self, por sua vez, representa a totalidade da psique, incluindo aspectos conscientes e inconscientes.

Podemos imaginar o ego como uma parte de um território muito maior.

Conhecemos algumas regiões.

Outras permanecem desconhecidas.

A individuação não significa conquistar definitivamente todo esse território.

Mas desenvolver uma relação mais consciente com aquilo que encontramos pelo caminho.

E essa ideia nos ajuda a observar a diferença entre Harry e Voldemort.

Harry e Voldemort: dois caminhos diante da morte

Desde o início da saga, Harry e Voldemort têm uma ligação profunda.

Os dois perderam suas famílias.
Os dois tiveram infâncias marcadas por experiências difíceis.
Os dois têm habilidades extraordinárias.

E, em determinado momento, descobrimos que compartilham até mesmo uma ligação mágica, por meio de um fragmento da alma de Voldemort.

Mas existe uma diferença fundamental entre os dois.

A maneira como se relacionam com a morte.

Cena do filme: no pátio destruído de Hogwarts, Voldemort, de manto escuro, dispara um feixe de luz verde com a varinha, em meio a escombros e faíscas, diante das paredes de pedra do castelo
Voldemort no duelo final.

Voldemort considera a morte uma fraqueza que precisa ser vencida.

Ele deseja alcançar a imortalidade, mesmo que isso signifique destruir outras pessoas e fragmentar a própria alma.

Harry, por outro lado, passa grande parte da história tentando compreender e lidar com a morte.

Ele perdeu os pais.
Depois, Sirius.
Dumbledore.
Dobby.
E tantas outras pessoas importantes.

Enquanto Voldemort tenta escapar da morte a qualquer custo, Harry precisa aprender a viver sabendo que ela existe.

Essa diferença nos leva a uma reflexão interessante.

O que acontece quando o medo de perder alguma coisa começa a controlar todas as nossas escolhas?

Podemos ter tanto medo de fracassar que deixamos de tentar.
Tanto medo de perder alguém que tentamos controlar a relação.
Tanto medo de mudar que permanecemos em situações que já não fazem sentido.

O desejo de proteção, quando levado ao extremo, pode acabar nos aprisionando.

Voldemort representa uma versão radical dessa tentativa de controle.

Ele não quer apenas prolongar sua vida.

Quer eliminar a possibilidade de morrer.

E, para isso, está disposto a destruir aquilo que o torna humano.

As Horcruxes: a alma fragmentada

No capítulo anterior, conversamos sobre as Horcruxes.

No universo de Harry Potter, elas são criadas quando um bruxo usa o assassinato para fragmentar sua alma e esconder parte dela num objeto ou ser vivo.

Voldemort acredita que, enquanto esses fragmentos existirem, poderá impedir sua morte definitiva.

Mas existe uma contradição nessa escolha.

Para preservar sua existência, ele precisa destruir a integridade da própria alma.

Podemos interpretar essa imagem como uma metáfora da fragmentação interior.

Imagine alguém que deseja tanto ser reconhecido profissionalmente que começa a abandonar tudo aquilo que considera importante.

As amizades.
A família.
A saúde.
Os próprios valores.

A pessoa continua alcançando objetivos.

Mas talvez comece a perceber que alguma coisa está sendo deixada para trás.

Não porque buscar reconhecimento seja necessariamente ruim.

Mas porque qualquer desejo pode se tornar um problema quando passa a dominar completamente nossa existência.

Na psicologia de Jung, a individuação aponta para uma direção diferente.

Em vez de rejeitar partes de nós mesmos para sustentar uma única identidade, buscamos reconhecer e integrar diferentes dimensões da personalidade.

Isso não significa que as Horcruxes representem literalmente um conceito psicológico.

A fragmentação da alma pertence ao universo ficcional de Harry Potter.

Mas podemos usar essa imagem para pensar sobre o preço de tentar preservar uma identidade a qualquer custo.

E talvez Voldemort represente justamente essa contradição.

Ele deseja viver para sempre.

Mas sua busca pela imortalidade o leva a destruir cada vez mais aquilo que poderia dar sentido à própria vida.


As Relíquias da Morte: três maneiras de lidar com a finitude

Em As Relíquias da Morte, conhecemos a história dos três irmãos.

Segundo o conto, três irmãos encontram a Morte depois de atravessar um rio perigoso.

Cada um recebe um presente.

O primeiro pede uma varinha mais poderosa do que qualquer outra.
O segundo pede uma pedra capaz de trazer os mortos de volta.
O terceiro pede algo que permita sair daquele encontro sem ser seguido pela Morte.

Ele recebe uma capa da invisibilidade.

Esses objetos se tornam conhecidos como as Relíquias da Morte.

Mas o que mais me chama a atenção nessa história não são os poderes dos objetos.

São os desejos dos irmãos.

A Varinha das Varinhas: o desejo de poder

O primeiro irmão deseja ter uma varinha invencível.

Ele acredita que, com poder suficiente, poderá superar qualquer adversário.

Silhuetas em tons de sépia, da animação do conto dos três irmãos: duas figuras duelam de varinha erguida sobre uma pedra, com uma terceira ao fundo, numa paisagem enevoada com uma árvore grande à direita
O primeiro irmão e sua varinha invencível, na animação do conto.

Mas sua arrogância acaba provocando sua morte.

Podemos interpretar essa história como uma reflexão sobre a busca pelo controle.

Às vezes acreditamos que, se tivermos conhecimento, dinheiro, influência ou poder suficientes, vamos conseguir evitar qualquer vulnerabilidade.

Mas nenhuma dessas coisas elimina completamente os limites da existência.

O poder pode ampliar nossas possibilidades.

Mas não nos torna invulneráveis.

A Pedra da Ressurreição: o desejo de recuperar o passado

O segundo irmão deseja trazer de volta alguém que morreu.

Ele recebe uma pedra capaz de chamar uma presença parecida com a pessoa que perdeu.

Silhuetas em tons esverdeados, da animação do conto dos três irmãos: no alto de uma colina, sob os galhos compridos de uma árvore, um homem abraça a figura de uma mulher ao lado de uma lápide
O segundo irmão e a noiva que ele trouxe de volta.

Mas aquilo que retorna não consegue ocupar de novo o mesmo lugar no mundo dos vivos.

O irmão acaba sendo consumido pelo sofrimento.

Existe algo profundamente humano nessa história.

Todos nós podemos desejar recuperar alguma coisa que perdemos.

Uma pessoa.
Uma amizade.
Uma fase da vida.
Uma versão de nós mesmos.

Mas nem tudo pode ser recuperado da maneira como existia antes.

E talvez uma das experiências mais difíceis da vida seja aprender a conviver com aquilo que não podemos mudar.

A Capa da Invisibilidade: a aceitação dos limites

O terceiro irmão faz uma escolha diferente.

Ele não pede poder absoluto.

Também não tenta trazer alguém de volta.

Pede uma maneira de continuar vivendo sem ser perseguido pela Morte.

Silhuetas em tons de sépia, da animação do conto dos três irmãos: à esquerda, as mãos de garras compridas da Morte, e à direita o terceiro irmão, de cabeça baixa, segurando uma capa brilhante
O terceiro irmão recebe a capa.

Segundo o conto, ele vive por muitos anos e, quando chega sua hora, entrega a capa ao filho e recebe a Morte como uma velha amiga.

Essa é uma das imagens mais interessantes de toda a saga.

O terceiro irmão não vence a morte destruindo-a.

Ele aprende a viver sem ficar dominado por ela.

E talvez seja por isso que o conto apresenta uma questão tão importante.

Ser mestre da morte significa controlá-la ou deixar de ser controlado pelo medo dela?

O que significa aceitar a morte?

Quando falamos sobre aceitar a morte, não estamos dizendo que precisamos desejá-la ou deixar de valorizar a vida.

Pelo contrário.

Reconhecer que a vida tem limites pode transformar a maneira como escolhemos vivê-la.

Na filosofia, encontramos reflexões parecidas em diferentes tradições.

Os estoicos usavam a expressão memento mori, que significa lembrar-se da morte.

A ideia não era viver obcecado pelo fim.

Mas lembrar que nosso tempo é limitado.

E que justamente por isso nossas escolhas têm importância.

Essa reflexão também pode ser aproximada de outra expressão:

Memento vivere.

Lembre-se de viver.

A morte não precisa ser o centro da existência.

Mas reconhecer sua possibilidade pode nos ajudar a compreender melhor aquilo que valorizamos.

No conto dos três irmãos, o último não passa a vida tentando derrotar a Morte.

Ele simplesmente vive.

E, quando chega o momento, aceita sua condição.

Essa imagem será fundamental para compreender a escolha de Harry na Floresta Proibida.

A Floresta Proibida: o encontro com a própria morte

Perto do final da história, Harry descobre que carrega dentro de si um fragmento da alma de Voldemort.

Ele compreende que, para que Voldemort possa ser derrotado, aquele fragmento precisa ser destruído.

E acredita que isso vai exigir sua própria morte.

Harry então caminha até a Floresta Proibida.

Sem tentar fugir.
Sem procurar uma maneira de escapar.

Ele usa a Pedra da Ressurreição para encontrar as presenças dos pais, de Sirius e de Lupin.

Cena do filme: Harry caminha por uma floresta escura de troncos enormes e cobertos de musgo, acompanhado pelas figuras de Sirius e de Lupin, logo atrás, e de Lílian, de cabelo ruivo, ao lado
Harry e as presenças trazidas pela Pedra da Ressurreição, a caminho da clareira.

Mas não pede que o salvem.

Procura coragem para continuar.

Essa cena representa uma mudança profunda em relação ao garoto que conhecemos no primeiro filme.

Naquela época, Harry descobria um mundo mágico e procurava compreender seu lugar nele.

Agora, precisa decidir o que fazer diante de uma situação que parece não oferecer saída.

E sua escolha é importante.

Harry não caminha para a floresta porque deixou de valorizar a própria vida.

Ele faz isso porque acredita que sua decisão poderá proteger outras pessoas.

Isso diferencia sua atitude da busca de Voldemort.

Voldemort sacrifica os outros para preservar a própria existência. Harry aceita colocar a própria vida em risco para proteger os outros.

Não precisamos interpretar essa cena como uma recomendação de autossacrifício na vida real.

Dentro da narrativa, ela representa uma escolha moral diante de circunstâncias extraordinárias.

E, simbolicamente, podemos enxergar nela algo próximo da morte do ego.

O que é a morte do ego?

A expressão morte do ego aparece em diferentes tradições espirituais e interpretações psicológicas.

Mas é importante compreender que, na psicologia de Jung, o ego não é simplesmente algo ruim que precisamos destruir.

O ego tem uma função importante.

Ele organiza nossa experiência consciente e participa da construção da nossa identidade.

Sem ele, não conseguiríamos nos orientar na realidade.

O problema surge quando o ego passa a acreditar que representa a totalidade daquilo que somos.

Quando nossa identidade fica completamente presa à necessidade de controlar, vencer, possuir ou preservar uma determinada imagem de nós mesmos.

Numa leitura simbólica, a morte do ego pode representar o enfraquecimento dessa identificação rígida.

Não significa deixar de existir como indivíduo.

Mas reconhecer que nossa existência é maior do que a imagem que tentamos sustentar.

Na Floresta Proibida, Harry abandona a tentativa de controlar completamente seu destino.

Ele não sabe exatamente o que vai acontecer.

Mas decide agir de acordo com aquilo que considera importante.

Essa cena pode ser interpretada como uma transformação da sua relação com o medo, o poder e a própria identidade.

King’s Cross: entre a vida e a morte

Depois de receber a Maldição da Morte, Harry desperta num lugar que se parece com a estação King’s Cross.

Tudo está branco.
Silencioso.
Quase vazio.

Ele encontra Dumbledore, que conversa com ele sobre aquilo que aconteceu.

Cena do filme: Harry, de camiseta cinza, e Dumbledore, de barba e roupas brancas, conversam de pé numa estação toda branca e enevoada, com colunas apagadas pela luz ao fundo
Harry e Dumbledore na King's Cross toda branca.

A cena tem uma atmosfera muito diferente da Floresta Proibida.

Depois da escuridão, encontramos um espaço claro e aparentemente tranquilo.

Podemos aproximar visualmente essa passagem das imagens alquímicas da nigredo e da albedo.

A escuridão seguida de uma espécie de clarificação.

Mas isso não significa que o filme esteja representando literalmente essas etapas.

É uma leitura simbólica possível.

Durante a conversa, Harry descobre que pode voltar à vida.

Também compreende melhor a relação entre sua existência e o fragmento da alma de Voldemort.

Existe um detalhe interessante nesse encontro.

Harry pergunta a Dumbledore se tudo aquilo está acontecendo dentro da sua cabeça.

Dumbledore responde que isso não significa que seja menos real.

Essa conversa abre espaço para uma reflexão sobre a realidade das experiências interiores.

Sonhos, lembranças, sentimentos e imagens mentais não precisam acontecer fisicamente no mundo externo para produzir efeitos reais na nossa vida.

Um sonho pode nos fazer refletir.
Uma lembrança pode mudar nosso humor.
Uma ideia pode transformar nossas escolhas.

Jung dedicou grande parte dos seus estudos justamente à importância dessas experiências psíquicas.

Isso não significa que tudo aquilo que imaginamos seja verdadeiro no mundo externo.

Mas que a vida interior também merece ser observada e compreendida.

Harry volta de King’s Cross com uma compreensão diferente sobre sua própria situação.

Ele não tem controle absoluto sobre a vida e a morte.

Mas ainda pode escolher como agir.


O Self: tornar-se inteiro

Voltando à psicologia analítica, precisamos compreender outro conceito importante de Jung.

O Self, ou Si-mesmo.

Enquanto o ego representa o centro da consciência, o Self simboliza a totalidade da psique.

Ele inclui tanto aquilo que reconhecemos conscientemente quanto aspectos que permanecem inconscientes.

A individuação envolve o desenvolvimento de uma relação mais consciente entre o ego e essa totalidade.

Isso não significa alcançar um estado de perfeição.

Nem descobrir uma versão definitiva de quem somos.

A personalidade humana continua se desenvolvendo ao longo da vida.

E sempre vão existir aspectos que ainda não compreendemos completamente.

Podemos usar a jornada de Harry como uma metáfora desse processo.

No início, ele desconhece sua própria história.

Depois, descobre características que compartilha com Voldemort.

Enfrenta medos.
Questiona suas certezas.
Reconhece suas limitações.
E aprende a tomar decisões a partir daquilo que considera importante.

Harry não se torna alguém sem conflitos.

Mas desenvolve uma relação diferente com eles.

Talvez seja essa uma das maneiras mais interessantes de compreender a individuação.

Não se tornar uma pessoa perfeita, mas desenvolver uma relação mais consciente com a pessoa que somos.

Harry e Voldemort: integração e fragmentação

Quando olhamos para toda a saga, encontramos um contraste interessante.

Voldemort tenta preservar sua identidade por meio da fragmentação.
Harry precisa reconhecer uma ligação com aquilo que considera seu maior inimigo.

Voldemort rejeita a mortalidade.
Harry aprende a reconhecer seus limites.

Voldemort busca poder para controlar os outros.
Harry descobre que suas relações são uma parte importante da sua força.

Isso não significa que Harry represente literalmente o Self e Voldemort represente apenas a sombra.

Na psicologia analítica, os conceitos são mais complexos do que uma divisão entre herói e vilão.

Mas os dois personagens permitem refletir sobre caminhos diferentes de desenvolvimento.

Um marcado pela tentativa de controlar tudo.

Outro pela necessidade de reconhecer aquilo que não pode controlar.

Talvez a maior transformação de Harry não esteja em se tornar o bruxo mais poderoso. Mas em descobrir que não precisa ser.

A Pedra Filosofal e o verdadeiro ouro

No primeiro capítulo desta coleção, conversamos sobre a Pedra Filosofal.

Na história, ela tem o poder de transformar metais em ouro e produzir o Elixir da Vida.

Mas também exploramos uma interpretação simbólica da alquimia.

A ideia de que transformar chumbo em ouro pode representar uma transformação interior.

Agora, depois de acompanhar toda a jornada de Harry, podemos voltar a essa imagem.

Harry começou sua história procurando compreender o mundo mágico.

Mas, ao longo do caminho, precisou compreender também a si mesmo.

Descobriu suas capacidades.
Reconheceu seus medos.
Aprendeu sobre suas origens.
Enfrentou perdas.
E precisou decidir o que fazer com aquilo que descobriu.

Se pensarmos na alquimia como uma metáfora do desenvolvimento humano, talvez o ouro não represente poder, riqueza ou perfeição.

Talvez represente uma forma de sabedoria.

A capacidade de reconhecer nossas contradições sem sermos completamente dominados por elas.
De compreender nossos limites sem abandonar nossas possibilidades.
De valorizar a vida sem acreditar que podemos controlá-la inteiramente.

Mas existe algo importante nessa interpretação.

A transformação não acontece de uma vez.

Harry não se torna alguém diferente apenas porque encontrou a Pedra Filosofal.

Nem porque enfrentou Voldemort.

Sua transformação acontece ao longo de toda a jornada.

Nas amizades.
Nos conflitos.
Nas descobertas.
Nas escolhas.

E talvez isso também aconteça com a gente.

Não existe necessariamente um momento em que finalmente nos tornamos quem deveríamos ser.

Continuamos mudando conforme vivemos.

E talvez a individuação não seja uma busca por uma identidade perfeita.

Mas um processo de aproximação com aquilo que somos, inclusive com as partes que ainda desconhecemos.

O fim da jornada

Quando comecei a rever Harry Potter, minha curiosidade estava principalmente nos símbolos.

A Pedra Filosofal.
O Cérbero.
O xadrez.
Os dementadores.
O Patrono.
As Horcruxes.
As Relíquias da Morte.

Mas, conforme fui conhecendo um pouco mais sobre alquimia e psicologia analítica, comecei a perceber que esses elementos também podem servir como imagens para refletirmos sobre nossa própria existência.

A alquimia fala sobre transformação.
A sombra nos convida a reconhecer aquilo que escondemos.
A nigredo nos apresenta imagens de decomposição e incerteza.
A albedo e a rubedo podem simbolizar clarificação e integração.
E a individuação nos convida a desenvolver uma relação mais consciente com a totalidade da nossa personalidade.

Não precisamos acreditar que todos esses conceitos foram colocados de propósito em cada cena dos filmes.

O interessante é perceber como diferentes histórias podem despertar perguntas parecidas.

Quem somos?
O que fazemos com nossos medos?
Quanto da nossa identidade depende daquilo que tentamos controlar?
E o que acontece quando precisamos abandonar uma antiga maneira de compreender a vida?

Cena do filme: Rony, Hermione e Harry, sujos e cansados, lado a lado ao ar livre depois da batalha, olhando para o horizonte com montanhas ao fundo
Rony, Hermione e Harry depois da batalha de Hogwarts.

Talvez seja por isso que algumas histórias continuem nos acompanhando mesmo depois que crescemos.

Quando crianças, enxergamos a magia.

Quando adultos, começamos a reconhecer algumas das nossas próprias experiências nos personagens.

E talvez a Pedra Filosofal nunca tenha sido apenas sobre transformar chumbo em ouro.

Talvez também seja uma imagem daquilo que acontece quando nossas experiências começam a se transformar em compreensão.

Quando aquilo que vivemos muda nossa maneira de enxergar o mundo.

E quando, ao tentar compreender o mundo, acabamos descobrindo alguma coisa sobre nós mesmos.

Ao encontrar a essência das coisas, me aproximo da minha essência.
Ao me aproximar da minha essência, me aproximo da essência das coisas.