Capítulo 053
Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban
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Quando assisti a Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban pela primeira vez, lembro que o filme me causou uma sensação diferente dos anteriores.
Tudo parecia mais sombrio.
As cores, os cenários, a atmosfera e até os personagens.
Aquela sensação de descoberta e encantamento dos primeiros filmes parecia estar dando lugar a um mundo mais perigoso.
Durante muito tempo, esse foi um dos filmes de que menos gostei da saga.
Mas, depois de conhecer um pouco mais sobre alquimia e psicologia analítica, comecei a enxergar essa escuridão de outra maneira.
Talvez ela seja justamente o que torna esse capítulo tão interessante.
O que é nigredo na alquimia?
No primeiro capítulo, conversamos sobre a alquimia e sua busca pela transformação do chumbo em ouro.
Mas essa transformação não aconteceria simplesmente colocando um metal dentro de um recipiente e esperando que ele se tornasse precioso.
Os alquimistas desenvolveram diferentes procedimentos e representações para descrever a transformação da matéria.
Entre essas imagens, encontramos três etapas bastante conhecidas:
- Nigredo: associada ao escurecimento, à decomposição e à dissolução.
- Albedo: associada ao embranquecimento e à purificação.
- Rubedo: associada ao avermelhamento e à realização da obra alquímica.

Essas etapas não formavam um sistema único seguido por todos os alquimistas. Seus significados variavam conforme a época e a tradição.
Carl Gustav Jung, ao estudar os textos alquímicos, encontrou nessas imagens paralelos com processos de transformação psicológica.
E a nigredo chamou especialmente sua atenção.

Na leitura psicológica, podemos associá-la aos momentos em que nossas certezas começam a se desfazer.
Quando aquilo que acreditávamos conhecer sobre nós mesmos deixa de fazer tanto sentido.
Quando somos confrontados com medos, contradições e sentimentos que preferíamos não encontrar.
É como se uma parte da nossa antiga maneira de enxergar o mundo precisasse se desorganizar para que outra compreensão pudesse surgir.
Mas isso não significa que todo sofrimento seja necessário, ou que passar por experiências difíceis nos torne automaticamente pessoas melhores.
A transformação depende também de como compreendemos e elaboramos aquilo que vivemos.
E é aqui que o terceiro filme começa a ganhar outro significado.
Os dementadores: quando a escuridão se aproxima
Uma das criaturas mais marcantes de O Prisioneiro de Azkaban são os dementadores.
Eles guardam a prisão de Azkaban e têm a capacidade de retirar a felicidade e a esperança das pessoas.

Quando se aproximam, o ambiente parece perder a vida.
O frio aumenta.
As cores desaparecem.
As lembranças felizes ficam distantes.
Harry é particularmente afetado por essas criaturas.
Quando as encontra, começa a ouvir os gritos da mãe nos momentos antes de ela morrer.
Existe uma interpretação simbólica interessante nessa relação.
Os dementadores podem representar aqueles estados emocionais em que nossa percepção do mundo parece dominada pelo sofrimento.
Momentos em que uma experiência dolorosa ocupa tanto espaço que temos dificuldade de perceber qualquer outra coisa.
E existe um detalhe importante.
Harry não é afetado porque é mais fraco do que os outros.
Lupin explica que ele reage com tanta intensidade porque passou por experiências terríveis.
Isso muda a maneira como podemos interpretar sua vulnerabilidade.
Às vezes, uma reação que parece exagerada para quem observa de fora tem uma história que não conhecemos.
E compreender essa história pode ser mais importante do que simplesmente tentar eliminar a reação.
O que acontece quando tentamos fugir da própria sombra?
No capítulo anterior, conversamos sobre o conceito de sombra na psicologia de Jung.
A sombra reúne aspectos da personalidade que não reconhecemos ou temos dificuldade de aceitar.
Mas existe uma pergunta que ainda não exploramos completamente.
O que acontece quando começamos a reconhecer nossa sombra, mas não sabemos como lidar com ela?
Imagine alguém que sempre acreditou ser uma pessoa tranquila.
Até que, durante uma discussão, percebe uma raiva muito maior do que esperava sentir.
Essa descoberta pode provocar desconforto.
A pessoa talvez tente negar o sentimento.
Ou passe a acreditar que existe algo terrivelmente errado consigo.
Mas sentir raiva não significa necessariamente desejar prejudicar alguém.
O desafio está em compreender o sentimento e escolher o que fazer com ele.
Na psicologia analítica, o encontro com a sombra pode abalar a imagem que construímos de nós mesmos.
Persona
A face social que apresentamos ao mundo: os papéis e atitudes por meio dos quais nos relacionamos com outras pessoas.
A persona é importante para a convivência.
O problema aparece quando passamos a acreditar que somos apenas aquilo que mostramos.
A pessoa que sempre precisa ser forte pode ter dificuldade em reconhecer sua vulnerabilidade.
Aquela que se considera extremamente racional pode rejeitar os próprios sentimentos.
E quem deseja ser sempre gentil pode ter dificuldade em estabelecer limites.
Reconhecer essas contradições pode ser desconfortável.
Mas também pode ampliar nossa compreensão sobre quem somos.
Lupin: o homem e o lobo
Um dos personagens mais interessantes do terceiro filme é Remo Lupin.
Durante boa parte da história, ele aparece como um professor gentil, paciente e compreensivo.

Mas existe algo que Lupin procura esconder.
Ele é um lobisomem.
Durante a lua cheia, sofre uma transformação que não consegue controlar completamente.

O lobisomem é uma figura antiga do imaginário humano.
Em diferentes histórias, representa a tensão entre nossa identidade consciente e forças instintivas que parecem escapar ao controle.
Podemos usar essa imagem para refletir sobre a sombra.
Lupin não deixa de ser uma pessoa gentil por ter uma condição que o transforma em lobo.
Ao mesmo tempo, suas transformações representam um perigo real, que exige responsabilidade e cuidado.
Essa distinção é importante.
Reconhecer uma parte de nós mesmos não significa que todos os comportamentos associados a ela sejam aceitáveis.
Uma pessoa pode reconhecer que tem tendências agressivas sem precisar agir agressivamente.
Pode compreender seu ciúme sem tentar controlar outra pessoa.
Pode admitir sua insegurança sem permitir que ela determine todas as suas decisões.
Lupin também traz outra questão interessante: o medo da rejeição.
Ele esconde sua condição porque sabe que pode ser discriminado.
Isso nos faz pensar em quantas características escondemos não só porque as consideramos ruins, mas porque temos medo de como as outras pessoas vão reagir.
Às vezes, aquilo que escondemos diz tanto sobre nós quanto sobre o mundo em que aprendemos a viver.
Sirius Black: quando nossas certezas estão erradas
Durante grande parte do filme, Harry acredita que Sirius Black é um criminoso perigoso.
Ele também acredita que Sirius traiu seus pais.

Essa informação desperta sentimentos intensos de raiva e desejo de vingança.
Mas, conforme a história avança, descobrimos que a situação era muito diferente.
Sirius não havia traído os pais de Harry.
O verdadeiro responsável era Pedro Pettigrew, que manipulou os acontecimentos para esconder a própria traição.

Essa revelação transforma completamente a maneira como Harry compreende sua história.
E aqui encontramos outro conceito importante da psicologia analítica.
O que é projeção?
Projeção
Um processo pelo qual atribuímos a outras pessoas sentimentos, características ou conteúdos psíquicos que não reconhecemos adequadamente em nós mesmos.
Por exemplo, alguém que tem dificuldade em reconhecer a própria competitividade pode enxergar competição em praticamente todas as atitudes dos outros.
Ou uma pessoa que sente muita insegurança pode interpretar comportamentos neutros como sinais constantes de rejeição.
Isso não significa que toda crítica feita a outra pessoa seja uma projeção.
Às vezes, aquilo que percebemos no outro realmente está acontecendo.
No caso de Sirius, Harry não está simplesmente projetando sua sombra. Ele foi levado a acreditar em informações falsas.
Por isso, a cena funciona melhor como uma reflexão sobre outro problema: o quanto nossas emoções e certezas podem ser construídas a partir de uma compreensão incompleta da realidade.
Harry acreditava conhecer o inimigo.
Mas precisava descobrir que sua história era mais complexa do que imaginava.
E talvez isso também aconteça com a gente.
Quantas vezes julgamos uma pessoa sem conhecer toda a história?
Quantas vezes interpretamos uma situação só pela perspectiva da nossa própria dor?
Revisar uma certeza pode ser desconfortável.
Mas também pode ser uma forma de amadurecimento.
O Patrono: encontrar luz não significa eliminar a escuridão
Para enfrentar os dementadores, Harry precisa aprender o feitiço do Patrono.
Lupin explica que o feitiço exige concentração numa lembrança feliz.
Quando realizado com sucesso, o Patrono assume a forma de uma figura protetora capaz de afastar os dementadores.
No caso de Harry, essa figura é um cervo.
Existe algo interessante nessa imagem.
Harry não derrota os dementadores com força física.
Ele precisa desenvolver uma capacidade que ainda não domina.
E essa capacidade exige treino.

Na primeira tentativa, ele não consegue produzir um Patrono completo.
Precisa praticar, falhar e tentar de novo.
Isso nos permite pensar sobre a transformação psicológica de maneira menos idealizada.
Conhecer nossos medos não significa que eles vão desaparecer.
Da mesma forma, compreender um comportamento não significa conseguir mudá-lo imediatamente.
Algumas mudanças exigem tempo, prática e novas experiências.
O Patrono também pode ser interpretado como uma imagem dos recursos internos que desenvolvemos para enfrentar situações difíceis.
Uma lembrança significativa.
Uma relação de confiança.
Uma experiência que nos lembra daquilo que valorizamos.
Mas é importante não transformar essa metáfora numa regra sobre saúde mental.
Nem todo sofrimento pode ser superado com pensamentos positivos ou lembranças felizes.
A força da cena está em mostrar Harry aprendendo a encontrar recursos para enfrentar aquilo que antes o dominava.
O cervo: um símbolo de transformação
No final do filme, Harry acredita ter visto o pai produzindo um Patrono para salvá-lo.
Mas, depois de usar o Vira-Tempo, descobre que foi ele próprio quem fez o feitiço.

Essa é uma das cenas que considero mais interessantes de toda a história.
Harry esperava que alguém viesse salvá-lo.
Especialmente o pai, cuja ausência acompanha sua vida desde a infância.
Mas descobre que a figura que procurava era ele mesmo.
Podemos interpretar essa cena como um momento de reconhecimento da própria capacidade.
Não significa que Harry deixe de precisar dos outros.
Ao longo da história, ele continua dependendo de amigos, professores e pessoas que o ajudam.
Mas, naquele instante, compreende que também tem recursos que antes não reconhecia.
Existe uma diferença entre desejar que alguém nos ajude e acreditar que somos incapazes de agir sem essa ajuda.
O cervo também cria uma ligação simbólica com o pai, Tiago Potter, cuja forma de animago era um cervo.
Assim, o Patrono reúne duas dimensões interessantes.
A memória de alguém que Harry perdeu.
E uma capacidade que ele começa a desenvolver em si mesmo.
O passado continua fazendo parte da sua história.
Mas não precisa determinar completamente aquilo que ele será.
A escuridão faz parte da transformação?
Voltando à alquimia, a nigredo representa uma etapa associada ao escurecimento e à decomposição da matéria.
Numa leitura psicológica, podemos enxergar nessa imagem os momentos em que nossa antiga compreensão de nós mesmos começa a perder a estabilidade.
Harry atravessa algo parecido ao longo do terceiro filme.
Ele precisa lidar com lembranças dolorosas.
Enfrentar criaturas que despertam seus maiores medos.
Descobrir que algumas das suas certezas estavam erradas.
E reconhecer capacidades que ainda não sabia que tinha.
Mas existe uma diferença importante entre atravessar a escuridão e permanecer preso a ela.
Na alquimia, a nigredo não é necessariamente o objetivo final da transformação.
É a imagem de um processo que ainda está acontecendo.
E talvez essa seja uma maneira interessante de compreender certas experiências da vida.
Às vezes, não sabemos exatamente quem estamos nos tornando.
Apenas percebemos que algumas certezas antigas já não fazem tanto sentido.
Nesses momentos, pode ser tentador encontrar rapidamente uma nova resposta.
Uma nova identidade.
Uma nova explicação para tudo.
Mas nem sempre a compreensão acontece imediatamente.
Algumas perguntas precisam de tempo.
Outras talvez nunca tenham uma resposta definitiva.
E isso não significa que estamos deixando de avançar.
É preciso atravessar a escuridão
No início de O Prisioneiro de Azkaban, Harry parece estar cercado por ameaças.
Sirius Black.
Os dementadores.
As lembranças dos pais.
Os segredos de Lupin.
Mas, no final, descobrimos que nem tudo aquilo que parecia ameaçador era realmente seu inimigo.
Sirius, que Harry acreditava ser perigoso, se torna alguém importante na sua vida.
Lupin, que escondia uma condição assustadora, se revela um dos professores que mais o ajudam.
E o Patrono, que parecia estar além das suas capacidades, surge justamente quando ele precisa confiar em si mesmo.
Talvez a escuridão do terceiro filme não esteja só na fotografia ou na atmosfera.
Ela também está nas incertezas que Harry precisa atravessar.
E isso me faz pensar em quantas vezes confundimos aquilo que desconhecemos com aquilo que devemos temer.
Nem tudo que está escondido é necessariamente ruim.
Nem toda dificuldade contém uma lição.
E nem toda transformação exige sofrimento.
Mas algumas experiências nos convidam a olhar para partes da vida que antes não conseguíamos compreender.
Talvez seja esse um dos significados mais interessantes da nigredo.
Não a ideia de que precisamos viver na escuridão.
Mas a possibilidade de que, ao atravessar certos períodos de incerteza, a gente desenvolva uma compreensão diferente de si mesmo.
No fim, Harry descobre que a figura que esperava encontrar do outro lado do lago era ele próprio.
E fico pensando…
Quantas vezes esperamos encontrar em outra pessoa uma força que ainda não reconhecemos em nós?