Capítulo 051

Harry Potter e a Pedra Filosofal

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Foto de revista: Daniel Radcliffe como Harry Potter, de óculos, camiseta larga e meias brancas furadas, sentado na cama do armário sob a escada, iluminado por uma lâmpada, com a porta aberta e o texto “The Boy Who Would Be Potter” no canto

Quando era criança, eu gostava de assistir Harry Potter e ficava fascinado com aquele universo.

A magia, os feitiços, as criaturas mágicas e os mistérios de Hogwarts.

Mas, depois de conhecer um pouco mais sobre filosofia, alquimia e psicologia, comecei a perceber que algumas histórias podem ter significados que vão além daquilo que vemos na tela.

E foi assim que voltei a assistir a Harry Potter e a Pedra Filosofal.

Dessa vez, minha curiosidade não estava apenas na magia.

Estava nos símbolos.

Mas, antes de falar sobre a simbologia do filme, vamos tentar entender alguns termos.

O que é alquimia?

Quando ouvimos falar em alquimia, geralmente pensamos em pessoas misturando substâncias, tentando transformar chumbo em ouro.

Gravura alquímica colorida: um velho de barba branca, coroa e manto roxo e branco aponta para um grande frasco de vidro onde um sol e uma lua com rostos se unem, dentro de um círculo de símbolos alquímicos vermelhos, com um lago e uma cidade ao fundo
Hermes Trismegisto aponta a união do sol e da lua no vaso alquímico. Gravura do Philosophia Reformata, de Johann Daniel Mylius (1622).

E essa busca realmente fez parte da história da alquimia.

Mas, ao longo dos séculos, ela também recebeu interpretações filosóficas e espirituais.

Nessas interpretações, a transformação dos metais pode representar algo que acontece dentro do próprio ser humano.

O chumbo simboliza aquilo que ainda está bruto, confuso ou pouco desenvolvido.
O ouro representa a sabedoria, o amadurecimento e a transformação interior.
E a Pedra Filosofal seria o elemento capaz de realizar essa transformação.

É interessante pensar que, simbolicamente, o objetivo deixa de ser apenas transformar a matéria.

Passa a ser transformar aquele que realiza a busca.

A Pedra Filosofal

No primeiro filme, a Pedra Filosofal é um objeto capaz de transformar metais em ouro e produzir o Elixir da Vida, associado à longevidade.

Os dois procuram a pedra.

Mas querem coisas completamente diferentes dela.

Voldemort quer recuperar seu poder e escapar da morte.
Harry só quer impedir que ela seja usada para isso.

E é justamente essa diferença que estabelece o conflito entre os dois.

Olhando pela lente da alquimia, a Pedra Filosofal não é apenas um objeto da história.

Ela funciona como um símbolo daquilo que cada personagem considera ouro.

Essa diferença aparece no Espelho de Ojesed.

Cena do filme: Harry, pequeno, de pé diante de um espelho alto de moldura dourada, num salão de pedra vazio com colunas e arcos góticos
Harry diante do Espelho de Ojesed.

O espelho revela os desejos mais profundos de quem olha para ele.

Dumbledore avisa que há pessoas que definham diante dele, presas ao próprio desejo.

Harry, quando o encontra pela primeira vez, vê seus pais.

Reflexo no espelho, em tons de sépia: uma mulher ruiva e um homem de óculos olham para a frente, com a sombra de Harry entre os dois
Lily e James Potter no reflexo do espelho.

Mais tarde, diante da pedra, o espelho revela outra coisa.

Ele se vê encontrando a Pedra Filosofal.

E a pedra aparece em seu bolso.

Cena do filme: Harry, de óculos, rosto arranhado e suéter vermelho rasgado, segura a pedra na mão, de pé diante de uma parede de chamas
A pedra nas mãos de quem não queria usá-la.

Dumbledore explica:

Dumbledore

Somente quem quisesse encontrar a pedra, mas não utilizá-la, conseguiria obtê-la.

Harry Potter e a Pedra Filosofal

Essa talvez seja uma das chaves simbólicas mais importantes do filme.

Parece um paradoxo.

Mas é justamente essa a ideia.

Quem deseja possuir a pedra não consegue possuí-la.
Quem não deseja possuí-la se torna capaz de recebê-la.

É quase uma parábola sobre o apego e o desejo.

Quando o desejo vira apego

Desejar não é o problema.

Harry também deseja encontrar a pedra.

Mas, se você pensa “eu preciso dessa coisa para finalmente estar completo”, já está colocando o seu poder fora de você.

Voldemort faz exatamente isso durante toda a história.

Ele acredita que precisa dominar a morte para existir plenamente.

Mas é justamente a sua incapacidade de aceitar a morte que o mantém preso a ela.

Harry faz o contrário.

Ele pôde conquistar aquilo que mais desejava e escolheu não usar.

E é justamente por isso que a pedra pode chegar até ele.

O que acontece quando aquilo que procuramos deixa de ser um caminho e se torna uma obsessão?

Wu wei: quanto mais você agarra, mais escapa

Essa cena também tem uma leitura taoista.

No Taoismo existe a ideia de wu wei, muitas vezes traduzida como “não ação”, mas que fala de agir sem forçar, sem tentar controlar o fluxo das coisas.

Quanto mais você tenta agarrar algo, mais ele escapa.

A pedra é quase uma representação disso.

O desejo de possuir impede a posse.
O desapego permite receber.

Citação

Você só está pronto para receber aquilo que não precisa possuir.


O Cérbero: o guardião da passagem

Antes de chegar à Pedra Filosofal, Harry e seus amigos precisam enfrentar alguns desafios.

O primeiro deles é Fofo, o cachorro de três cabeças que guarda o alçapão. (fofin iti malia 👉👈)

Cena do filme: as três cabeças de Fofo, um cachorro gigante de pelo cinza-azulado, rosnando e mostrando os dentes, lado a lado
Fofo, o guardião do alçapão.

Essa criatura lembra Cérbero, o cão de três cabeças da mitologia grega, responsável por guardar a entrada do mundo dos mortos.

Na mitologia, Cérbero representa uma fronteira entre dois mundos.

No filme, Fofo também protege uma passagem.

Em muitas histórias, o personagem precisa atravessar um limite para entrar em contato com algo desconhecido.

É o momento em que deixa para trás a segurança do mundo familiar e começa a enfrentar desafios que exigem transformação.

Na psicologia de Jung, o inconsciente representa aspectos da vida psíquica que não estão diretamente disponíveis à consciência.

Podemos imaginar a descida de Harry como uma metáfora desse encontro com o desconhecido.

Não porque Fofo represente literalmente o inconsciente, mas porque a imagem do guardião de uma passagem aparece em diferentes mitos e narrativas.

Às vezes, para encontrar alguma coisa, precisamos atravessar aquilo que nos assusta.

O xadrez: nem toda vitória acontece sem perdas ♟️

Outro desafio que sempre me chamou a atenção é o tabuleiro de xadrez de bruxo gigante.

Harry, Rony e Hermione precisam participar de uma partida em que as próprias peças se movimentam e se destroem.

Cena do filme: um tabuleiro de xadrez gigante de casas pretas e brancas, ladeado por peças de pedra escura enormes, iluminado por pequenas chamas no chão
O tabuleiro de xadrez gigante que guarda o caminho até a pedra.

Rony assume a responsabilidade de conduzir a partida.

E, para que Harry consiga continuar, ele precisa sacrificar sua própria peça.

No xadrez, não basta movimentar as peças sem pensar.

Precisamos observar o tabuleiro, antecipar possibilidades e compreender que algumas decisões exigem abrir mão de alguma coisa.

Uma peça pode ser sacrificada para que outra alcance seu objetivo.

Na vida, também existem escolhas que exigem renúncias.

Não podemos seguir todos os caminhos ao mesmo tempo.

Às vezes precisamos abandonar uma possibilidade para permitir que outra aconteça.

E Harry não chega à pedra apenas por sua própria habilidade.

Precisa confiar nos amigos e reconhecer que não consegue atravessar todos os desafios sozinho.

A transformação também acontece nas relações.


O verdadeiro ouro

No final do filme, a Pedra Filosofal é destruída para impedir que Voldemort a utilize.

O objeto que todos procuravam deixa de existir.

Close da Pedra Filosofal, uma pedra vermelha translúcida e irregular, sobre um degrau de pedra iluminado por uma luz alaranjada

Mas Harry não termina a história da mesma maneira que começou.

Ele conheceu um mundo que antes desconhecia.
Descobriu suas capacidades.
Enfrentou seus medos.
Aprendeu a confiar em outras pessoas.
E começou a compreender que suas escolhas possuem consequências.

É possível interpretar essa jornada como uma forma de transformação interior.

Na alquimia simbólica, transformar chumbo em ouro pode representar a passagem de um estado de menor consciência para outro de maior compreensão.

Talvez a verdadeira Grande Obra1 nunca tenha sido transformar chumbo em ouro, mas transformar quem você é.

Mas existe um detalhe importante.

Harry não se transforma porque encontrou a pedra. Ele se transforma por tudo aquilo que precisou viver até chegar a ela.

Footnotes

  1. A Grande Obra (Magnum Opus) era o nome que os alquimistas davam ao processo inteiro de transformação que levaria à Pedra Filosofal. ↩