Capítulo 050
Lendas da Vida
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Outro dia assisti ao filme Lendas da Vida (The Legend of Bagger Vance, 2000) e descobri sua relação com um dos textos mais importantes da filosofia espiritual indiana: o Bhagavad Gita.
O que parecia ser só uma história sobre golfe acabou me levando a uma reflexão sobre a vida, sobre as nossas escolhas
e sobre as batalhas que enfrentamos dentro de nós.
A Canção do Senhor
Bhagavad Gita
Bhagavad Gita pode ser traduzido como A Canção do Senhor.
É um texto que faz parte do Mahabharata, uma grande epopeia1 indiana que reúne elementos históricos, míticos, religiosos e filosóficos.
Mas, para além da narrativa, gosto de pensar nele como um chamado à consciência.
A história é um diálogo entre Arjuna, um guerreiro, e Krishna, seu mestre espiritual e manifestação do divino.

Arjuna está diante de uma batalha entre duas famílias, os Kauravas e os Pandavas.

Do outro lado estão os próprios primos de Arjuna, os Kauravas, e, ao lado deles, o tio-avô Bhishma, que o viu crescer, e Drona, o mestre que o ensinou a usar o arco.
Ao reconhecer tantas pessoas queridas entre aqueles que vai precisar enfrentar, ele começa a questionar tudo.
Seu dever.
Suas escolhas.
O sentido daquela batalha.
O sentido da própria vida.
É nesse momento de dúvida que Krishna começa a ensiná-lo.
O diálogo atravessa a natureza da existência, a ação, o dever, o desejo, a morte e a relação entre o ser humano e o divino.
E talvez seja isso o que mais me interessa no livro.
A sabedoria não aparece quando tudo está em paz.
Ela surge justamente quando Arjuna já não sabe como continuar.
A batalha interior
Existe uma interpretação simbólica do Bhagavad Gita que transforma o campo de batalha numa representação da própria consciência humana.
Nessa leitura, os dois exércitos são tendências que convivem dentro de nós.
Os Kauravas podem simbolizar:
- Orgulho
- Arrogância
- Hipocrisia
- Ignorância
- Medo
- Preguiça
- Egoísmo
- Vaidade
- Rancor
- Preconceito
- Cólera
Os Pandavas podem representar:
- Verdade
- Justiça
- Coragem
- Paciência
- Disciplina
- Determinação
- Discernimento
- Compaixão
- Equilíbrio
- Inteligência
- Sabedoria
Quantas batalhas acontecem dentro de nós sem que ninguém perceba?
Às vezes sabemos o que é certo, mas escolhemos o caminho mais confortável.
Às vezes queremos mudar, mas continuamos repetindo os mesmos comportamentos.
Às vezes o orgulho fala mais alto do que aquilo que realmente importa.
Talvez o campo de batalha não esteja tão distante.
Talvez ele apareça todos os dias, nas pequenas escolhas.
O mestre e o discípulo
Em Lendas da Vida, acompanhamos Rannulph Junuh, um homem que perdeu a confiança e a conexão com aquilo que um dia amava.
É então que aparece Bagger Vance, um personagem misterioso que o ajuda a reencontrar seu caminho.
A relação entre os dois ecoa o diálogo entre Arjuna e Krishna.

Um homem perdido.
Um mestre que o orienta.
E uma batalha que não se vence só com habilidade.
No filme, o golfe vira uma metáfora da existência.
Junuh precisa reencontrar o seu swing perfeito, como diz o filme.
Não é uma técnica de golfe, mas a reconexão com sua própria essência autêntica.
E, para isso, também precisa enfrentar aquilo que carrega dentro de si.
E Bagger Vance não pode jogar por ele.
Assim como Krishna não pode viver a vida de Arjuna.
O mestre pode orientar.
Mas é o discípulo quem precisa agir.
Dharma: encontrar o próprio caminho
Um dos conceitos centrais do Bhagavad Gita é o Dharma.
É uma palavra difícil de traduzir numa única expressão.
Pode envolver dever, justiça, ordem, responsabilidade e a maneira correta de agir.
Numa leitura espiritual, também dá pra relacioná-lo à busca por uma existência mais consciente, alinhada com uma ordem maior.
Mas Dharma não é simplesmente fazer aquilo de que a gente gosta.
Às vezes, agir de acordo com os nossos valores exige enfrentar situações desconfortáveis.
E isso me fez pensar em quantas vezes buscamos respostas sobre qual caminho seguir.
Talvez o problema não seja só descobrir o caminho.
Talvez seja ter coragem de percorrê-lo.
Porque escolher uma direção também é abandonar outras possibilidades.
Não existe movimento sem alguma mudança.
E não existe transformação sem deixar alguma coisa para trás.
Karma: agir sem ser prisioneiro dos resultados
Outro conceito importante é o Karma.
De forma simplificada, é a relação entre as nossas ações e as suas consequências.
Mas, no Bhagavad Gita, o ensinamento vai além de causa e efeito.
Krishna ensina a agir com dedicação, sem se apegar aos frutos da ação.
Não que os resultados não existam ou não importem.
É que não controlamos tudo o que acontece depois de agir.
Podemos plantar uma semente.
Cuidar da terra.
Oferecer água.
Mas não podemos obrigá-la a florescer.
Quantas vezes deixamos de fazer algo porque não temos garantia de sucesso?
Quantas vezes desistimos porque não recebemos o reconhecimento que esperávamos?
E quantas vezes conquistamos o que desejávamos só para descobrir que continuamos insatisfeitos?
Talvez exista uma diferença entre agir porque algo tem valor e agir só pela recompensa.
Morrer para aquilo que já não somos
O Bhagavad Gita também traz ensinamentos sobre a morte e a natureza eterna do verdadeiro Eu.
Mas existe uma leitura simbólica da morte que me chama a atenção.
A morte como transformação.
Não só o fim da vida física, mas o fim de uma maneira de existir.
Algumas ideias precisam morrer para que outras possam nascer.
Algumas identidades deixam de fazer sentido.
Algumas certezas precisam ser questionadas.
E talvez parte do nosso sofrimento venha da tentativa de segurar aquilo que já está mudando.
Queremos crescer sem abandonar nada.
Queremos chegar a outro lugar sem sair de onde estamos.
Mas toda transformação envolve alguma perda.
Nem sempre perder é fracassar.
Às vezes, é só o preço de continuar vivendo.
A conquista de si mesmo
Existe um ensinamento do Dhammapada, texto da tradição budista, que conversa com essa reflexão:
Dhammapada 103
Maior que a conquista de mil homens em batalha é a conquista de si mesmo.
Podemos conquistar reconhecimento.
Vencer disputas.
Acumular bens.
Alcançar posições importantes.
E, ainda assim, continuar dominados pelo medo, pelo orgulho, pela vaidade ou pela necessidade de aprovação.
Talvez por isso a batalha de Arjuna continue tão atual.
Porque não se trata só de vencer um inimigo de fora.
Trata-se também de compreender aquilo que nos move.
Numa leitura simbólica, dá pra imaginar duas direções nas nossas escolhas.
Uma que nos aproxima da consciência, da responsabilidade e daquilo que consideramos mais nobre.
Outra que nos mantém presos ao ego, à ignorância e aos nossos próprios condicionamentos.
Espírito e matéria não precisam ser inimigos, mas essa oposição serve como imagem para pensar nas nossas prioridades.
O que estamos alimentando com as nossas ações?
O que estamos cultivando dentro de nós?
O caminho continua
No fim, o que mais me marcou em Lendas da Vida e no Bhagavad Gita foi perceber que nenhum mestre pode percorrer o caminho por outra pessoa.
Podemos ler livros.
Estudar filosofias.
Buscar respostas.
Encontrar pessoas que nos ajudem a enxergar a vida de outra maneira.
Mas chega um momento em que é preciso agir.
Arjuna precisa entrar na batalha.
Junuh precisa voltar a jogar.
E nós precisamos continuar vivendo.
Talvez nunca tenhamos todas as respostas.
Talvez algumas certezas precisem morrer pelo caminho.
E talvez seja justamente nesse movimento que algo dentro de nós comece a se transformar.
Afinal, de que adianta conquistar o mundo inteiro se continuamos desconhecendo a nós mesmos?
Footnotes
-
Epopeia é um longo poema narrativo que conta os feitos de heróis, muitas vezes misturados a deuses e acontecimentos grandiosos, e que ajuda a contar a história e os valores de um povo. A Ilíada e a Odisseia, de Homero, são epopeias; Os Lusíadas, de Camões, também. ↩