Capítulo 034

O Último Homem

3 min de leitura

Cena do filme: um homem de camiseta branca deitado num sofá listrado, de olhos semicerrados e boca entreaberta, apontando o controle remoto para a frente

O Último Homem

O produto final de uma civilização que coloca o conforto acima de tudo.

Nietzsche

Ele não é fraco.
Está confortável.
Satisfeito.
Seguro.

Dorme bem.
Come bem.
Tem entretenimento de sobra.

Não odeia nada o bastante para lutar contra.
Não ama nada o bastante para sacrificar algo por isso.

A crítica de Nietzsche não era aos pobres.
Era aos homens que tinham tudo e decidiram que aquilo bastava.

Trocaram o fogo de dentro pelo conforto de fora.
E chamaram a própria covardia de sabedoria.


Olhe ao redor.

Gente capaz, inteligente,
que consome cultura em vez de criar,
que assiste vidas na tela em vez de construir a própria.

Opiniões sobre tudo e iniciativa para quase nada.


Ninguém chega lá de uma vez.

  1. Primeiro, o excesso de estímulo, até ele virar o normal.
  2. Depois, a anedonia: a realidade começa a parecer sem graça. É A Queda de Aníbal.
  3. Então, a fuga para a vida provisória do Eterno Menino.
  4. E, no fim, o último homem.

Isso não é inevitável.
Mas é o caminho padrão.

É o que acontece quando você deixa o ambiente escolher por você.


Os príncipes do século XV sabiam:
executar um rival cria um mártir.
Dar conforto a ele dissolve o rival por dentro.

Luís XI guardava os inimigos em palácios, não em masmorras.
Em poucos anos, estavam lentos, sem foco, presos aos próprios confortos.

O sistema não precisa te oprimir.
Basta te dar tudo o que você quer
até você esquecer do que precisa.

Você não está sendo forçado.
Está sendo convidado.
E está aceitando.


Sêneca separava prazer de alegria.

O prazer vem de fora.
Depende de condições.
Pede sempre mais.
E, quando vai embora, deixa você mais vazio.

A alegria vem de dentro.
Nasce da ação alinhada com quem você é.
Do esforço que vira algo real.

E o maior perigo não é a dificuldade.
É ser protegido demais dela.


--:--
Tive Que Te Matar Aquele DiaLetoDie

Mas, aos poucos, aprendi a ter empatia
Conhecer a mim mesmo, questão de sabedoria
A vida pune, e confiar no tempo é utopia
Eu precisei mudar, conforto é anestesia
Te enterrei sem sentir melancolia
Do nosso passado restam só fotografias
Lições que, sem você, sei que nunca aprenderia
Mas se eu não te matasse, você quem me mataria
Eu sei que estivemos juntos por anos
Mas tu não vai mais machucar quem eu amo
Me fazer quebrar promessas e planos
Pra manter todos teus vícios e enganos


Quando eu era garoto, meu pai se sentava na minha cama toda noite antes que eu adormecesse
E ele me dizia: “Se você não acordar amanhã, se hoje for o seu último dia na Terra
Você estaria orgulhoso do que fez nessa vida?
Porque, se você não está, é melhor começar a acertar as contas”

AVE
Lambe-lambe de uma águia em pleno voo, de asas abertas e garras à mostra, em preto e cinza, colado num poste de uma rua de paralelepípedos à noite