Capítulo 048
Vou me libertar do tempo dos homens
3 min de leitura


“Tempo”, do Boogarins, pode ser lida como uma reflexão sobre a nossa relação com a passagem do tempo.
Sobre essa tensão entre querer compreender a vida
e simplesmente vivê-la.
Vou me libertar
Do tempo dos homens
Só vou te encontrar
Enquanto eles dormemNão vou me importar
Com o tanto que podem
Pois quero afrouxar
A coleira dos homensEsqueça das horas
Pois nada demoraAme e deixe os outros
Pois bando de bicho solto
É bem melhor
Existe o tempo do relógio
e existe o tempo da experiência.
O primeiro continua avançando, independentemente de nós.
O segundo parece mudar
conforme estamos presentes, distraídos, apaixonados
ou preocupados com o futuro.
E essa diferença abre uma pergunta:
Será que estamos vivendo o momento
ou só esperando que ele nos leve a algum lugar?
Libertar-se do tempo dos homens
O centro da música é a vontade de escapar do tempo imposto pela sociedade.
E não é só sobre horários.
É sobre viver num ritmo que muitas vezes a gente não escolheu:
- Trabalhar.
- Produzir.
- Cumprir expectativas.
- Correr atrás de resultados.
Citação
Se libertar do relógio do homem.
A coleira invisível
A música usa a imagem de uma coleira
pra falar das limitações que a vida social impõe.
Às vezes somos nós mesmos que continuamos obedecendo às expectativas,
mesmo quando temos liberdade pra fazer outra coisa.
A canção parece perguntar:
Quanto do que a gente faz nasce de um desejo verdadeiro
e quanto nasce do hábito de obedecer?
O santuário
Em 2016, pra criar o clipe, a banda pediu aos fãs imagens de dois mundos:
- O mundo dos homens: trânsito, prédios, trabalho, escola e rotina.
- O santuário: natureza, amigos, família, música, arte e tudo aquilo que dá uma sensação de liberdade.
O clipe foi feito com essas imagens.

E essa oposição ajuda a entender a música.
Não se trata necessariamente de abandonar a sociedade,
mas de encontrar espaços onde a gente possa existir
sem estar o tempo todo respondendo às exigências dela.
Wu Wei
Aqui entra a minha interpretação.
No taoismo, Wu Wei tem a ver com agir sem forçar,
respeitando o movimento natural das coisas.
E a música parece expressar um desejo parecido.
O relógio organiza a sociedade,
mas a natureza não consulta o relógio pra florescer.
Uma árvore não se preocupa em crescer mais rápido que a outra.
O rio não precisa provar que está chegando a algum lugar.
Talvez exista algo de profundamente libertador
em reconhecer que nem tudo precisa seguir o ritmo que a gente inventou.
O paradoxo
O que mais me chama a atenção em “Tempo” é um paradoxo.
A gente quer ter mais tempo.
Mas muitas vezes usa esse tempo
tentando conquistar coisas que prometem, no futuro, nos dar liberdade.
Trabalhamos pra descansar depois.
Corremos pra ter tranquilidade depois.
Adiamos experiências pra quando tudo estiver resolvido.
E se esse momento nunca chegar?
Talvez a música não esteja pedindo mais tempo, mas uma maneira diferente de habitá-lo.
E é essa a parte que mais me lembra a AVE:
a liberdade que dá pra encontrar na arte, na dança, na natureza
e nas experiências que não precisam justificar a própria existência.

A pergunta que a música me deixa é:
Se ninguém estivesse contando as horas,
o que você faria com o seu tempo?